Recentemente comecei uma saga de ler Tolkien comparando a maioria de suas traduções em português, começando pelo Hobbit.
Em língua portuguesa, a primeira edição do romance apareceu em 1962, publicada pela Livraria Civilização com o título O Gnomo, em tradução de Maria Isabel Morna Braga e Mário Braga. Em 1985, a editora Europa-América lançou uma nova edição intitulada O Hobbit, motivada, entre outros fatores, pela discordância do autor quanto à adaptação do termo “Hobbit” para “Gnomo” e a outras escolhas da tradução anterior; essa versão ficou a cargo de Fernanda Pinto Rodrigues.
No Brasil, a obra foi publicada pela primeira vez em 1976 pela editora Artenova, com tradução de Luiz Alberto Monjardim. Em 1995, a Martins Fontes lançou uma nova tradução, realizada por Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta. Mais recentemente, a HarperCollins Brasil promoveu a retradução de grande parte da obra de Tolkien.
Aqui explico e comparo algumas das traduções da canção dos anãos "Misty Mountains", e por fim deixo uma tradução bem simples de entender. Infelizmente não tive acesso a nenhuma cópia do "O Gnomo", nem da versão da Artenova.
Muito antes de espadas serem desembainhadas ou dragões enfrentados, O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, apresenta ao leitor o verdadeiro motor de sua narrativa por meio de uma canção. “Misty Mountains Cold”, entoada pelos anões na casa de Bilbo Bolseiro, não é apenas um momento musical: trata-se de um relato poético de perda, memória e esperança, que sintetiza a tragédia e a motivação desse povo.
A música surge logo no início da obra, quando Thorin Escudo-de-Carvalho e seus companheiros ainda são vistos como figuras excêntricas e até cômicas. O tom grave da canção, porém, rompe essa impressão inicial e revela a dimensão histórica e emocional da jornada que está prestes a começar. Sem recorrer a longas explicações, os versos narram a queda do antigo reino anão sob a Montanha Solitária, a prosperidade de suas forjas e tesouros, e a ruptura provocada pela chegada do dragão Smaug, responsável pela destruição do lar e pelo exílio de seu povo.
Ao mencionar as “Montanhas Nebulosas frias”, a canção ultrapassa a referência geográfica. Elas simbolizam o caminho árduo do desterro, a distância entre o presente marcado pela errância e o passado de grandeza. O ouro, frequentemente citado, não aparece como mero objeto de cobiça, mas como emblema de identidade, honra e continuidade cultural. Recuperá-lo significa, para os anões, restaurar a própria dignidade e reafirmar quem eles são.
Narrativamente, “Misty Mountains Cold” desempenha um papel decisivo. Ela estabelece o tom épico e melancólico da história, revela a seriedade da missão e, sobretudo, provoca uma transformação silenciosa em Bilbo. O hobbit, até então satisfeito com sua rotina confortável, é tocado pelo canto e começa a sentir o chamado da aventura, como se a música despertasse nele algo adormecido.
A adaptação cinematográfica dirigida por Peter Jackson intensificou esse aspecto ao transformar a canção em um quase cântico fúnebre, de ritmo lento e solene. A escolha reforça o caráter de lamento coletivo e confere à cena um peso emocional ainda maior, apresentando a jornada não como uma simples expedição, mas como uma resposta ao trauma e à perda.
“Misty Mountains Cold” funciona como o coração emocional de O Hobbit. É um lamento que preserva a memória de um povo, um registro histórico cantado e, ao mesmo tempo, um chamado à ação. Mais do que falar de ouro ou de montanhas, a canção revela que a aventura dos anões nasce da saudade, do exílio e da esperança de retorno ao lar perdido.
Trecho da canção no filme, em inglês: https://www.youtube.com/watch?v=Pyy_FIYE7EE
Trecho da canção no filme, dublado: https://www.youtube.com/watch?v=_0Nf7RLyJ9M
Trecho do desenho animado: https://www.youtube.com/watch?v=6C0jfB8QTbo
Tolkien cantando a canção: https://www.youtube.com/watch?v=FYYpOSL-eho
1. A VERSÃO ORIGINAL EM INGLÊS [Como publicada em The Hobbit (Enhanced Edition)]
Far over the misty mountains cold
To dungeons deep and caverns old
We must away ere break of day
To seek the pale enchanted gold.
The dwarves of yore made mighty spells,
While hammers fell like ringing bells
In places deep, where dark things sleep,
In hollow halls beneath the fells.
For ancient king and elvish lord
There many a gleaming golden hoard
They shaped and wrought, and light they caught
To hide in gems on hilt of sword.
On silver necklaces they strung
The flowering stars, on crowns they hung
The dragon-fire, in twisted wire
They meshed the light of moon and sun.
Far over the misty mountains cold
To dungeons deep and caverns old
We must away, ere break of day,
To claim our long-forgotten gold.
Goblets they carved there for themselves
And harps of gold; where no man delves
There lay they long, and many a song
Was sung unheard by men or elves.
The pines were roaring on the height,
The winds were moaning in the night.
The fire was red, it flaming spread;
The trees like torches blazed with light.
The bells were ringing in the dale
And men looked up with faces pale;
The dragon's ire more fierce than fire
Laid low their towers and houses frail.
The mountain smoked beneath the moon;
The dwarves , they heard the tramp of doom.
They fled their hall to dying fall
Beneath his feet, beneath the moon.
Far over the misty mountains grim
To dungeons deep and caverns dim
We must away, ere break of day,
To win our harps and gold from him!
2. A VERSÃO DA EUROPA-AMÉRICA
A mais literal de todas as traduções, e por isso mesmo, a minha preferida:
Para longe, no frio das montanhas Nebulosas,
Para masmorras fundas e velhas cavernas
Partir devemos antes de nascer o dia,
Em busca do pálido e encantado ouro.
Os anões antigos poderosos encantamentos fizeram
Enquanto martelos desciam como sinos vibrantes,
Em lugares fundos onde escuras coisas dormem,
Em salões ocos debaixo das montanhas.
Para rei antigo e senhor élfico
Muitos rutilantes tesouros lá moldaram
E fundiram, e a luz capturaram
Para em gemas de punho de espada a aprisionarem.
Em colares de prata cravejaram
As florescentes estrelas, em coroas suspenderam
O fogo do dragão, em fio torcido
Entreteceram a luz da Lua e do Sol.
Para longe, no frio das montanhas Nebulosas,
Para masmorras fundas e velhas cavernas
Partir devemos antes de nascer o dia,
Para reclamar o nosso há muito esquecido ouro.
Taças lá esculpiram para si próprios,
E harpas de ouro; onde nenhum homem mora
Longamente eles moraram, e muitas canções
Cantaram, sem que homens ou elfos as escutassem.
Os pinheiros bramiam nas alturas,
Os ventos gemiam na noite.
O fogo era vermelho, a chama alastrava;
As árvores como archotes de luz fulguravam.
Os sinos vibravam no vale
E homens olhavam, pálidos, para cima;
Depois a ira do dragão, mais fera do que fogo,
Arrasou as suas torres e frágeis casas.
A montanha fumegava sob a luz;
Os anões ouviam os passos do Destino.
Fugiram do seu palácio para caírem moribundos
Debaixo dos pés dele, debaixo da Lua.
Para longe, na soturnidade das montanhas Nebulosas,
Para masmorras fundas e penumbrentas cavernas,
Partir devemos antes de nascer o dia,
Para a ele conquistas as nossas harpas e o nosso ouro!
3. A VERSÃO DA MARTINS FONTES
Essa versão muda um bocado as palavras, pendendo para uma tradução mais rebuscada. Eu pessoalmente não gosto, mas sei que tem muita gente que aprecia.
Para além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços cravados,
Devemos partir antes de o sol surgir,
Em busca do pálido ouro encantado.
Operavam encantos anões de outrora,
Ao som de martelo qual sino a soar
Na profundeza onde dorme a incerteza,
Em antros vazios sob penhascos do mar.
Para o antigo rei e seu elfo senhor
Criaram tesouros de grã nomeada;
As pedras plasmaram, a luz captaram
Prendendo-a nas gemas do punho da espada.
Em colares de prata eles juntaram
Estrelas floridas; fizeram coroas
De fogo-dragão e no mesmo cordão
Fundiram a luz do sol e da lua.
Para além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços perdidos,
Devemos partir antes de o sol surgir
Buscando tesouros há muito esquecidos.
Para seu uso taças foram talhadas
E harpas de ouro. Onde ninguém mora
Jazeram perdidas e suas cantigas
Por homens e elfos não foram ouvidas.
Zumbiram pinheiros sobre a montanha,
Uivaram os ventos em noites azuis.
O fogo vermelho queimava parelho,
As árvores-tochas em fachos de luz.
Tocaram os sinos chovendo no vale,
Erguiam-se pálidos rostos ansiosos;
Irado o dragão feroz se insurgira
Arrasando casas e torres formosas.
Sob a luz da lua fumavam montanhas;
Os anões ouviram a marcha final.
Fugiram do abrigo achando o inimigo
E sob seus pés a morte ao luar.
Para além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços perdidos
Devemos partir antes de o sol surgir,
Buscando tesouros há muito esquecidos.
4. A VERSÃO DA HARPER COLLINS BRASIL
Essa versão segue mais rebuscada. Inclusive o tradutor disse que se inspirou em textos portugueses antigos, como de Camões.
Além dos montes em nevoeiro
Pras masmorras sem prisioneiro
Vamos embora, antes da aurora,
Buscar nosso ouro feiticeiro.
De anãos antigos a magia
Em seus martelos se fazia
Numa cava a treva sonhava,
No oco salão da encosta fria.
Pro nobre elfo e rei antigo
Ao brilho belo do ouro amigo
Deram forma, co' a luz que adorna
Joias que em arma têm abrigo.
Em colar de prata puseram
Astros em flor, laurel fizeram
Com luz feroz de draco atroz,
O sol e a lua em fio trançaram.
Além dos montes em nevoeiro
Pras masmorras sem prisioneiro
Vamos embora, antes da aurora,
Lembrai-vos d'ouro feiticeiro!
No breu moldaram muitos cálices,
Harpas d'ouro; canções multíplices
Feitas ali, sem gente ouvir,
Elfo ou homem, só os aurífices.
Pinhais rugiam nas alturas,
Ventos gemiam nas lonjuras.
Rubro o fogo, sem desafogo.
Fez de tochas as copas duras.
Sinos soaram no valão
E os homens viram o clarão;
Do draco a ira, fera pira,
Torres e casas pôs no chão.
Ardeu o monte sob a lua;
Aos anãos coube a sina sua.
Foi-se o salão de supetão
Aos pés do monstro sob a lua.
Além dos frios montes escuros
Pros grandes calabouços duros
Vamos embora, antes da aurora,
Recobrar ouro em nossos muros!
5. UMA VERSÃO IA COM TRADUÇÃO LITERAL
Segue uma tradução literal, mantendo estrutura, imagens e sentido o mais próximo possível do original, com versos preservados, gerados pelo chatGPT:
Muito além das Montanhas Nebulosas frias
Para masmorras profundas e cavernas antigas
Devemos partir antes do romper do dia
Para buscar o pálido ouro encantado.
Os anões de outrora lançaram poderosos feitiços,
Enquanto martelos caíam como sinos ressoantes
Em lugares profundos, onde coisas sombrias dormem,
Em salões ocos sob as colinas.
Para antigos reis e senhores élficos
Ali havia muitos reluzentes tesouros dourados
Eles moldaram e forjaram, e capturaram a luz
Para escondê-la em gemas no punho da espada.
Em colares de prata eles enfiaram
As estrelas florescendo; nas coroas penduraram
O fogo do dragão, em arame retorcido
Entrelaçaram a luz da lua e do sol.
Muito além das Montanhas Nebulosas frias
Para masmorras profundas e cavernas antigas
Devemos partir, antes do romper do dia,
Para reivindicar nosso ouro há muito esquecido.
Taças eles talharam ali para si
E harpas de ouro; onde nenhum homem escava
Ali jaziam por muito tempo, e muitas canções
Foram cantadas sem serem ouvidas por homens ou elfos.
Os pinheiros rugiam nas alturas,
Os ventos gemiam na noite.
O fogo era vermelho, espalhava-se em chamas;
As árvores, como tochas, ardiam em luz.
Os sinos tocavam no vale
E os homens olhavam para cima com rostos pálidos;
A ira do dragão, mais feroz que o fogo,
Arrasou suas torres e frágeis casas.
A montanha fumegava sob a lua;
Os anões ouviram o passo da perdição.
Fugiram de seu salão para a queda mortal
Sob seus pés, sob a lua.
Muito além das Montanhas Nebulosas sombrias
Para masmorras profundas e cavernas escuras
Devemos partir, antes do romper do dia,
Para reconquistar dele nossas harpas e nosso ouro!
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